Sem Covid-19 até agora, cidade em GO vê doença chegar depois de 90 dias

Domingo dia 21 /06 por lenil de Oliveira

Os moradores da cidade de Goiás (antiga Goiás Velho) viveram três meses debaixo do véu da dúvida. Foi como passar os dias olhando o relógio, à espera de um visitante indesejado, sem hora para chegar.

O município de apenas 22 mil habitantes, fechado aos visitantes e em si mesmo para se proteger da Covid-19, registrou na última quarta-feira (17) seus dois primeiros casos: um casal de moradores esteve em Goiânia para ajudar uma pessoa que estava doente e vivia só, e todos acabaram se infectando. Há outros três moradores em observação.

Berço da cultura goiana, a antiga Villa Boa de Goyaz travou uma batalha diária e meio surrealista para garantir o isolamento. Goiás vive do turismo, graças à preservação de um conjunto arquitetônico e urbanístico de quase 300 anos que lhe conferiu o título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade.

O temor pela chegada do inimigo invisível baqueou a rotina dos moradores da pacata cidade, que se orgulha de manter tradições religiosas, artísticas e culturais. Uma das mais importantes acontece durante a Semana Santa, na Procissão do Fogaréu, tradição viva há 275 anos e que teve de ser cancelada por causa da pandemia.

“É um período que a gente aguarda com muita ansiedade. Nossa Semana Santa tem 40 dias, são vários ritos, procissões, festividades. A procissão do fogaréu chega a atrair 20 mil pessoas pra cá”, relata Suzana Magalhães de Almeida, que preside o Conselho Municipal de Turismo e a associação que reúne restaurantes, pousadas, hotéis e casas de temporada. Está tudo fechado desde os primeiros dias da pandemia, assim como parques, pontos turísticos e museus, incluindo a Casa de Cora Coralina, onde a poetisa e mais ilustre cidadã vilaboense viveu

Suzana conta que havia perspectiva de reabertura em 1º de julho, mas a confirmação desses dois primeiros casos deixou todos com a sensação de “perder a partida nos 45 do segundo tempo”. “Caiu como uma bomba. Nos cuidamos e nos protegemos tanto. Algumas pessoas já estavam desacreditando que o vírus tivesse essa proporção. O que nos alenta é que veio de outra pessoa de fora e não se alastrou pela cidade. A gente está torcendo pra ser só esses dois casos, se Deus quiser.”

Em pronunciamento a uma emissora de rádio e também pela página da prefeitura no Facebook, a prefeita Selma Bastos falou sobre o caso. “Hoje, 17 de junho de 2020, lamentavelmente venho a público comunicar os dois primeiros casos confirmados de Covid-19 na cidade de Goiás (…) Um casal foi dar atenção a uma pessoa muito próxima da família em Goiânia. Essa pessoa foi internada, foi pra UTI e testou positivo (…). O casal veio para Goiás já com sintomas e fez o procedimento correto: entraram em contato com a vigilância epidemiológica e foram acompanhados até a nossa unidade, preparada para receber as pessoas com sintomas. Estão sendo acompanhados e em isolamento domiciliar.”

Nas redes sociais, foram muitos os apelos por proteção divina, maior conscientização e medidas mais severas de isolamento. Por ora, a prefeitura avalia aplicação de multa para quem não usar máscaras.

Medidas de restrição

Em 16 de março, a prefeitura publicou o primeiro de uma série de decretos restritivos, suspendendo aulas, eventos e atividades coletivas. Barreiras sanitárias foram criadas para impedir a entrada de visitantes nos feriados e datas comemorativas. “As pessoas ficaram trancadas num primeiro momento, todo mundo vivia o medo coletivo. Não tinha lugar onde achar um pastel, uma pamonha. Depois, começaram a abrir algumas coisas, mas com muita cautela”, relata o servidor público Jansen Raveiro, que mudou-se para Goiás há poucos meses.

Jansen trabalha no IFG (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás), uma das três universidades que suspenderam as aulas, levando embora uma população flutuante que também ajuda a movimentar a economia e o dia-a-dia da cidade. “Minha última lembrança foi ter desinfetado uma câmera fotográfica e guardado na gaveta. No começo, foi bem assustador. Teve servidor que sequer terminou o expediente”, lembra.

Um Dona de uma pousada localizada em uma chácara que já abrigou oito gerações de sua família, Graça Fleury descreve como um grande velório o impacto das primeiras medidas de isolamento. “Temos uma tradição de festas, de música. Sempre foi uma cidade muito alegre. No início houve um baque, as pessoas ficaram entristecidas”, conta ela, que destaca uma curiosidade histórica da cidade: “Em 1918, não tivemos um caso de gripe espanhola na cidade de Goiás”, orgulha-se.

Gripes e isolamento

O historiador Leandro Carvalho Damacena Neto, professor do IFG, é autor de uma monografia, uma dissertação e dezenas de artigos sobre a gripe espanhola e seu impacto na cidade e no estado de Goiás. Nunca imaginou vivenciar seu próprio objeto de estudo — pelo menos por três meses. “A cidade viveu o ápice da gripe espanhola entre janeiro e fevereiro de 1919, enquanto na maioria das outras localidades, até mesmo em municípios do sul do nosso estado, a pandemia já havia chegado em outubro. Parece que as circunstâncias da gripe espanhola estão se repetindo. A doença chegou ao país em setembro de 1918 e causou a morte de 35 mil pessoas.

Damacena Neto explica que, na época, as estradas eram precárias e os cordões sanitários foram efetivos. Hoje é mais difícil controlar o entra e sai, mas a prefeitura tenta e investe na conscientização da população.

O maior temor são os turistas. “Tive que fazer o inverso de tudo que sempre fiz como prefeita: aprontei a cidade para receber o turista e depois tive de pedir pra não virem a Goiás”, lamenta a prefeita, que encerra seu segundo mandato.
Além das barreiras sanitárias, com o controle e medição de temperatura de quem entra, também foram armadas barreiras físicas em outros acessos. “A quem entra, perguntamos de onde veio, para onde vai, as pessoas passam pelo termômetro. Aos turistas, pedimos desculpas por não poder recebê-los.”

Agora é só live

A população acompanha o mundo lá fora pelas redes sociais. Todos os dias são publicados no Facebook da prefeitura boletins com o monitoramento dos casos e as informações (e boatos) correm rapidamente pelos grupos de WhatsApp.
A inclusão de uma única vez de seis casos suspeitos na noite de sexta-feira, em 5 de junho, fez a cidade passar o fim de semana apreensiva. “Todo dia que aparece um caso suspeito meu coração fica apertado. Enquanto não sai o resultado, não sossego. É como um cerco que vai se fechando” desabafa a prefeita, que teve de abrir mão das visitas semanais à capital em que levava pastelinho — um doce típico goiano — para adoçar seus interlocutores em busca de apoio e parcerias para o município. “Agora é só live.”

Passados três meses, a adesão inicial ao isolamento foi perdendo força e os moradores dizem que a cidade está dividida. Nos últimos 30 dias, comércio passou a abrir em horários restritos. Pousadas, restaurantes e atrativos turísticos seguem fechados, e aulas permanecem suspensas.

“O vírus aqui também foi muito politizado. Temos os negacionistas daqui e os que vêm passear aqui. Recebo diariamente muitas denúncias. Queremos receber bem, mas não é hora. Como está demorando, existe a sensação de que não vem. As pessoas não conseguem perceber que vai demorar mais, mas é só uma questão de tempo”, avaliou, profeticamente, a educadora Patrícia Mousinho, que administra uma página no Facebook com notícias e informações sobre a cidade. É lá que ela recebe denúncias de festas, aglomerações e visitas indesejadas.

O caso da cidade de Goiás é um exemplo do tamanho do desafio e das situações contraditórias causadas pelo avanço da pandemia, que já atinge oito a cada dez cidades brasileiras, segundo dados da plataforma Brasil.io, que reúne informações das secretarias de saúde de todo o país.

O Estado de Goiás conseguiu retardar a chegada da crise sanitária com uma ampla limitação a uma série de atividades, o que levou o governador Ronaldo Caiado (DEM) a romper publicamente com o presidente Jair Bolsonaro. Mas as medidas restritivas e o rompimento político não duraram muito tempo e foram gradualmente flexibilizadas, cabendo a cada município optar por uma estratégia.

Infelizmente — e não quero aqui externar política partidária — aquela entrevista em que o presidente chamou de ‘gripezinha’ deu uma desestabilizada, tanto no governo quanto nos municípios. E a sociedade ficou dividida também. Nosso governador foi muito firme e tomou decisões acertadas, mas estamos em ano de reeleição, os prefeitos ficam meio vulneráveis. A sociedade cobra, o comércio parou, a economia parou, as duplicatas vão vencendo. O governador foi muito cobrado e deu autonomia”, explicou a prefeita.

Com índices baixos de isolamento, a reabertura gradual acontece no estado de Goiás no momento em que há uma explosão de casos na capital Goiânia e em cidades como Rio Verde e Aparecida de Goiânia: o estado ultrapassou 14 mil casos confirmados de Covid-19 e 246 mortes até terça-feira (16), segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. Há ainda outros 37.164 casos suspeitos em investigação.

Na cidade de Goiás, coube ao município aplicar parte dos recursos recebidos e próprios para adaptar cinco leitos de UTI do centenário Hospital São Pedro de Alcântara para atender pacientes com a Covid-19 — um investimento de cerca de R$ 1 milhão, segundo a prefeitura. Principal unidade de saúde da região, o hospital atende cerca de 17 cidades do entorno. “E ainda tem uma equipe médica que nós rezamos para não precisar pagar”, destaca a prefeita.

Goiás vive uma realidade comum às pequenas cidades brasileiras que enfrentam dificuldades de gerar empregos e reter a população mais jovem. Sem arrecadação própria, a economia gira em torno do turismo e da temporada do Araguaia, que acontece em julho e foi cancelada pelo governo do estado no último dia 10.

“Já começo a sentir como se estivéssemos em uma panela de pressão pronta pra explodir. As pessoas não dão conta mais. A cidade não tem recursos. Com nossos atrativos fechados, parques, restaurantes e as universidades fechadas, o dinheiro não circula. Há dificuldades de manter funcionários. Daqui pra frente, como faz?”, questiona Suzana Magalhães de Almeida.

O isolamento prolongado e a nova realidade pós-pandemia também são vistos com apreensão pelos vilaboenses. “É uma cidade onde quase todas as pessoas estabelecem redes e relações. Todo mundo acaba se conhecendo, ainda que indiretamente. Essa ida à rua, visitar a casa de alguém, sentar na porta, tudo isso ainda é muito frequente aqui. É difícil imaginar esse isolamento”, descreve o historiador Damascena Neto.

Diante de um futuro repleto de incertezas, a cidade luta, a seu modo, para manter seus rituais. No último dia 6, alto-falantes instalados nas torres da Igreja Nossa Senhora do Rosário e um violeiro solitário a bordo de um carro de som mantiveram a tradição das serenatas todo primeiro sábado de lua cheia. “Foi muito bom. Nos sentimos unidos pelo amor a Goiás. Chegou como um abraço, conseguimos nos conectar através da música”, recorda Patricia Mousinho

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